Jorge Coimbra
Publicado por Chiado Editorial
Ah!
Mas fui-o confirmando ao longo da vida.
É mesmo pecado.
E na primeira escola ficou completamente claro.
Foi uma das primeiras vezes em que morri.
«A menina anda com o fio ao pescoço por fora da bata porquê?
Não tem vergonha?
A dar nas vistas.
É para os rapazes a verem?
Quem faz isso são as prostitutas [assim, com todas as letras].
Quer atraí-los?
Depois anda por aí nas ruas à espera que os carros parem, não é?
Estude.
Não dê nas vistas e faça como as freirinhas, que, Deus as abençoe, se dedicam a Ele e não usam nada que as distinga umas das outras.
Não, não é carneirismo.
É modéstia.
Não é, professor?» Balbuciei um Je suis d’un autre pays que le vôtre, madame.
E fui fuzilado.
Ela, que além de professora de português-francês, acumulava com a estupidez o cargo de Diretora de Ciclo, fuzilou-me.
Nem podia falhar, tal era o calibre dos olhos e a distância física que nos separava.
E eu caí contra uma porta, todo crivado, e comecei a escorregar.
Atrás de mim, as palavras que não tinha dito foram ficando a escorrer pelos vidros, pois já não poderiam sair-me da boca.
Estava morto.
Tinha a certeza.
As palavras escorriam por todo o lado.
Já formavam poças no chão.