O conhecimento possuído pelos alunos, na maioria das vezes referido como repertório, é abordado pelos professores ora de forma superficial, como mera soma de informações, ora de modo enigmático, através de palavras como transfiguração ou elaboração; o repertório é a condição de produção criativa mais freqüentemente mencionada como pertencente à esfera de ação do Professor.
A aquisição de domínio da Língua é basicamente relacionada pelos professores entrevistados com atividades de leitura, a qual é muitas vezes referida como a melhor, senão a única forma de instrumentalizar lingüisticamente o aluno e proporcionar-lhe vivências vicárias.
O uso da expressão "instrumentalizar" revela, no contexto das falas, o conceito de instrumento visto como auxiliar para, e não como constitutivo de.
A linguagem é vista como uma aquisição instrumental para que o aluno adquira sua identidade, para que tenha acesso aos livros, à informação, à cultura letrada.
Não aparece como sendo constitutiva dessa identidade, como algo que atue simultaneamente como construtora e construída.
Especificamente, os pré requisitos para uma produção de textos criativa residiriam em o aluno: 1. conhecer as diferentes formas do uso da Língua e saber lidar com elas; 2: saber ler, isto é, entender o texto com que se defronta, ser capaz de inferir o significado de um termo pelo contexto; 3: dominar um registro culto, primeiro na fala, depois na escrita; 4: estar familiarizado com o ato de escrever; 5: conhecer o assunto sobre o qual vai escrever; 6: ampliar suas informações e entrar em contacto com "modelos"; 7: gostar de escrever e estar motivado; 8: usar a imaginação; 9: ter o professor como interlocutor de seu texto; 10: ter um professor criativo.
O papel do professor é visto como o de levar o aluno a preencher todos estes pré requisitos, e os professores descreveram sua prática nas entrevistas, detalhando suas atividades com os alunos na preparação deles para a produção de textos.
Essa prática é em geral bastante coerente com afirmações em teoria, feitas no correr da entrevista, e revela que o professor percebe intuitivamente relações necessárias entre diferentes habilidades e competência linguística para que o processo criativo se dê.
As falas dos professores, em seu conjunto, nos levaram a refletir sobre o papel da linguagem verbal no processo criativo e a aventar a possibilidade de que ambos (linguagem verbal e processo criativo) estejam profundamente ligados, guardando entre si uma relação de dependência mútua.
Esperamos que nossa leitura das entrevistas feitas com estes professores possa aclarar as relações entre produção de textos e criatividade e permitam a emergência de novos focos de atenção no estudo destas relações.