Muitas propostas de alfabetização para crianças ouvintes tem ressaltado o papel da língua materna como mediadora no processo de aprendizagem da escrita.
Com base na constatação de que, em geral, as crianças surdas iniciam o processo formal de alfabetização a partir de um domínio precário da língua oral majoritária, é possível supor que elas possam vir a utilizar de uma série de outros recursos semióticos no processo de construção da escrita.
A partir dessa suposição e amparada na teoria sócio cultural, esta pesquisa tem como objetivo analisar a utilização dos recursos orais e gestuais durante o processo de sistematização da língua escrita por um grupo de crianças surdas educadas em uma proposta oralista.
Considerando esse objetivo, foram descritas e analisadas situações de interação entre os participantes do estudo: quatro crianças surdas e a terapeuta, que desenvolvia diferentes atividades com o objetivo de promover a aprendizagem da linguagem escrita.
Os dados de interesse foram obtidos através de video-gravação dessas diferentes atividades de aprendizagem.
Na análise do material coletado, foram identificados os recursos orais e gestuais empregados pelos participantes do estudo no processo de construção da escrita, estes últimos reconhecidos no decorrer dessa pesquisa como: gestos interpretantes de fonemas, gestos culturalmente significados e gestos mímicos.
O conjunto dos dados indicou que os gestos assumiram estatuto lingüístico para as crianças, que, ao compartilharem entre si os seus conhecimentos sobre a escrita, informavam o modo como estavam significando esse processo.