Claudeni dos Santos
Publicado por Clube de Autores
Abriu os braços como se possuísse asas enormes; respirou profundamente o resquício do ar quente do abril de Maiakovski e exclamou novamente “violência”, concentrando o pensamento no ponto central da rua em que a iluminação contrastava com o restante da alameda.
O tumulto causado pelo som das aves havia cessado bem como o som da multidão agora refugiada.
Televisão, rádio, bar.
Ausente, no silêncio dos homens e dos pássaros, restava o distúrbio dos veículos que transitavam em curtos intervalos, pequenas pausas na música ensurdecedora dos motores.
(...) “Ora, os miseráveis números!
Absurdos e confusos!
Desde o tempo em que me dou conta desse terrível engano que é a contabilidade e mesmo assim, fascina-me a estética sombria dos símbolos com sua mania pelo controle; (...) – sem perder os movimentos, tanto da rua quanto da música, continuou – “o que são os números?
Eis a questão que sempre retorna, com a resposta possivelmente aproximada de que se trata apenas de um complemento, uma abstração dificultosa para complicar uma realidade já maçante”.
(...) O espelho denunciava a melancolia de uma infância esquecida no tempo, mas presente no peito.
“Meus pais latiam como cães, aprofundando minha infelicidade em trevas cada vez mais densas, marcando-a com uma irreversível degradação moral.
Que valores pode ter um homem que teve sua infância afogada pela violência dos próprios pais?”.