Eu sou um contador de estórias.
Neste livro estão estórias da minha infância, nas Minas Gerais.
Muitas delas eu não vivi.
Eu as ouvi, contadas por outros.
E pelo ouvido tornaram-se minhas.
Por que haveria alguém de se interessar pelas estórias de um velho?
Porque todos fomos crianças.
Todos andamos pelos mesmos lugares.
Para Bernardo Soares, arte é comunicar aos outros nossa identidade íntima com eles.
As almas são iguais.
É o que torna possível a comunicação.
Alguém disse que a palavra “queijo” só tem sentido para alguém que já comeu queijo.
Não é possível comunicar o gosto e o cheiro do queijo a quem nunca comeu um.
A literatura é possível porque todos já comemos queijo.
Todas as nossas infâncias são variações sobre os mesmos temas.
As memórias de um outro fazem ressoar, naquele que as lê, o seu próprio passado adormecido.
Assim, não se trata de um encontro com as memórias de um outro, diferentes das minhas.
Trata-se de um reencontro com o meu próprio passado.
Se isso não acontecesse, o texto escrito seria um texto morto.
Murilo Mendes nos lembra que todos os textos são feitos com pedaços do escritor.
Acho que isso é verdadeiro no caso dessas minhas memórias.
Posso então dizer que são o meu sangue, o meu corpo.
Peço, portanto, aos meus leitores, que me leiam antropofagicamente... É a antropofagia que nos torna iguais.
Antropofagia é eucaristia...