"Quando um peregrino vem nos visitar, prostremo-nos ante ele.
Não ante o homem, mas, ante Deus".
Se for desta forma, e é de autoridade quem o pronunciou[1], eu diria, o é de modo eminente pelo que se refere ao protagonista, como também relator, da obra que nos ocupa.
Pela porta que abriremos para acolher este peregrino solitário, irá penetrar de algum modo a presença de Deus; viva presença que iluminará nossa alma na medida de nossas necessidades e de nossos anseios.
Exortação magnífica e poderosa à vida espiritual, como que um guia, estímulo e consolo, este "pequeno clássico" da espiritualidade, pequeno por sua simplicidade e humildade, e "clássico" por sua extraordinária difusão e acolhida, é obra, sem dúvida, de um perito guia de almas, capaz de ordenar em uma seqüência gradual, não segundo uma ordenação lógica ou, para o caso, teológica, mas especificamente espiritual uma série de relatos que, a primeira vista, podem parecer desprovidos de uma ligação e intenção determinadas.
O caminho que percorremos com o peregrino é simultaneamente um itinerário espiritual em sua concreta vivência, configurada pela sucessão de acontecimentos exteriores, como também, e fundamentalmente, um ensino específico contido em cada um deles, que nos aprofunda progressivamente na via espiritual, tal como é concebida pela tradição hesicasta em particular.
Nos relatos, descrevem-se todas as etapas do Caminho, da inicial inquietação da alma, que desperta à chamada do alto, até a chegada à hesychia, o "santo silêncio", passando pelas suas fases de purificação e iluminação prévias.
Este "testamento" do hesicasmo, como eu gostaria de qualificar esta obra, constitui um testemunho inapreciável, "o ramo mais direto e mais intacto da iniciação crística... que desde os Padres do deserto até o peregrino russo representa indiscutivelmente o patrimônio mais inalterado da espiritualidade cristã primitiva, quer dizer, propriamente crística, e sua expressão mais pura e profunda"[2], a qual não será certamente correto supor já praticamente extinta, pelo menos no que se refere à sua manifestação visível.
Os dois pilares da via, a doutrina e o método, são reiteradamente expostos e comentados pelos seus diversos ângulos.
A primeira, recolhida na Filocalia, "tesouro da sabedoria espiritual", como a qualifica seu editor, Nicodemo o Hagiorita; e o segundo, sintetizado na "oração de Jesus", invocação do Nome divino, ato que constitui a "lembrança" de Deus por excelência, satisfazendo assim ao mandamento que engloba a todos, conforme afirma, entre outros, Gregório o Sinaita, figura central no desenvolvimento histórico do hesicasmo: "acima dos mandamentos há o mandamento que contém a todos: a lembrança de Deus: lembra-te do Senhor teu Deus a todo momento (Dt., VIII, 18).
É por causa deste que outros foram violados, e é por este que se guardam os demais.
O esquecimento, na origem, destruiu a lembrança de Deus, obscureceu os mandamentos e descobriu a nudez ao homem".[3] A obra não frustrará, pois, o buscador disposto a mergulhar até o fundo, até a raiz de nossa situação atual de esquecimento de Deus e a repará-la na medida de suas possibilidades e dos intuitos da Providência, levando-se em conta o caráter total de uma via que, como a hesicasta, tem por meta a união da alma com Deus, em total identificação de sua essência.
Mas a obra pode ser abordada a partir de uma perspectiva menos radical, pois oferece igualmente, e eu diria necessariamente, elementos que podem ficar circunscritos à esfera moral apenas, oferecendo um mosaico de virtudes exemplares que possibilitam mover a alma piedosa às imitar, e a dar à alma tíbia estímulo suficiente ao ardor.
E do mesmo modo, em outra ordem paralela de coisas, a obra constitui, em nível histórico, uma pincelada que nos delineia o perfil espiritual da Santa Rússia nos anos imediatamente anteriores ao arranque implacável da Besta, que a ia converter na Sinistra Rússia.
Não vamos estender estas considerações gerais sobre a obra.
É por si mesma o bastante explícita para não necessitar de apresentações.
De qualquer modo, no que se refere ao complemento erudito, a introdução e as notas da primeira parte provêem um material suficiente, e no que faz referência ao seu valor espiritual, o prólogo da segunda parte falará melhor que estas linhas.
Para esta edição, completa por incluir em sua segunda parte três relatos, que apareceram posteriormente mas que são indissociáveis dos primeiros, partiu-se, para sua primeira parte, da tradução francesa de Jean Gauvain (pseudônimo de Jean Laloy), a mais difundida das versões ocidentais, na qual se respeitaram a introdução e as notas, salvo pequenas alterações que se consideraram oportunas; e, para a segunda, da tradução inglesa de R. M. French, que oferece, em geral, maiores acentos de rigor e exatidão do que a francesa da Abadia de Bellefontaine, a que, não obstante, teve-se igualmente presente.
Para esta segunda parte, contamos com a colaboração de M. Charles Krafft, grande conhecedor do assunto, e que teve a gentileza de escrever um prólogo especialmente para a edição espanhola, o qual reproduzimos nesta edição.
[1] O Abade APOLOS.
Cfr.
Apophtegmata Patrum (citado por Paul Evdokimov, Les âges de la vie spirituelle, Paris, 1964, p. 230).
[2] Frithjof SCHUON, De l’Unité transcendante des Religions, cap.
IX, "De l’initiation christique", Paris, 1968, pp. 155 e 161.
[3] Jean GOUILLARD, Petite Philocalie de la prière du coeur, "Livre de Vie", número 83-84, Paris, 1968, p. 177.