Charles H. Spurgeon
INTRODUÇÃO Entre todas as instituições deixadas por Cristo à Sua igreja, poucas são tão simples em sua forma e tão profundas em seu significado quanto a ceia do Senhor.
À primeira vista, ela se apresenta sem aparato, sem pompa, sem qualquer brilho exterior que impressione os sentidos naturais do homem.
Há uma mesa, pão, um cálice e um povo reunido em torno do nome de Jesus.
E, no entanto, sob essa santa simplicidade, esconde-se uma das mais sublimes proclamações de toda a fé cristã.
A ceia não foi dada à igreja como mero ornamento do culto, nem como um rito vazio que se perpetua por força do costume.
Ela foi instituída pelo próprio Redentor como memorial sagrado da Sua morte, testemunho visível do evangelho, alimento espiritual para a fé e anúncio contínuo da esperança cristã até o dia glorioso de Sua vinda.
Não é sem razão, portanto, que a igreja deve voltar repetidas vezes a essa ordenança para compreendê-la melhor.
Tudo o que Deus institui merece ser tratado com reverência, com inteligência espiritual e com temor santo.
Quando as coisas sagradas deixam de ser entendidas, logo passam a ser apenas repetidas; e, quando passam a ser apenas repetidas, em pouco tempo se tornam forma morta.
O coração humano tem uma triste inclinação para conservar a casca e perder o fruto, manter o gesto e abandonar o sentido, guardar a aparência e esquecer a verdade.
Assim, aquilo que foi dado para elevar a alma até Cristo pode degenerar em mera cerimônia religiosa, e aquilo que deveria acender a fé pode ser reduzido a um hábito sem vida.
Eis por que é necessário explicar, insistir, ensinar novamente, abrir o sentido daquilo que Cristo ordenou, para que a igreja não apenas participe da ceia, mas a discirna; não apenas se aproxime da mesa, mas compreenda o que nela está sendo anunciado.
A ceia do Senhor é, em certo sentido, um sermão visível.
Nela, a cruz é pregada sem voz, o sangue é anunciado sem palavras e o amor redentor de Cristo é posto diante dos olhos da igreja por meio de símbolos santos e eloquentes.
O pão partido não é um simples elemento do culto, mas uma testemunha silenciosa do corpo entregue.
O cálice distribuído não é apenas uma tradição eclesiástica, mas uma proclamação solene do sangue derramado para remissão dos pecados.
Cada vez que a igreja come deste pão e bebe deste cálice, ela ergue diante do mundo, dos anjos e de sua própria consciência esta grande verdade sobre a qual repousa toda a esperança dos eleitos: Cristo morreu.
Morreu realmente.
Morreu voluntariamente.
Morreu vicariamente.
Morreu como sacrifício pelos pecadores.
Morreu para vencer o pecado, satisfazer a justiça divina, glorificar a santidade de Deus e abrir um caminho eterno de reconciliação para Seu povo.
Aqui está a glória singular desta ordenança: ela não nos conduz a especulações humanas, nem a curiosidades infrutíferas, nem a religiosidades inventadas.
Ela nos leva diretamente ao centro da fé cristã.
A ceia não foi instituída para ocupar a imaginação, mas para fortalecer a fé.
Não foi dada para satisfazer o gosto por solenidades exteriores, mas para fixar o coração no Crucificado.
Não foi deixada à igreja como palco de mistérios fabricados por homens, mas como ordenança clara, pura, inteligível e profundamente espiritual.
Nela, Cristo não é oferecido novamente, pois Seu sacrifício foi perfeito e consumado de uma vez para sempre.
Nela, Cristo é anunciado, lembrado, contemplado e recebido pela fé.
A mesa do Senhor não acrescenta nada à suficiência da cruz; antes, aponta para ela, exalta-a e chama a igreja a descansar inteiramente nela.
Há, também, nessa ordenança, uma doçura pastoral que não deve ser negligenciada.
O Senhor Jesus, conhecendo a fraqueza do Seu povo, não apenas lhe deu promessas para serem cridas, mas também sinais para serem contemplados.
Ele sabe quão facilmente nos dispersamos, quão rapidamente nos esquecemos, quão frequentemente a fé enfraquece sob o peso das lutas, das tentações e das tristezas desta vida.
Por isso, em Sua ternura, deixou à igreja um memorial que fala ao entendimento e ao coração.
Na ceia, o evangelho é trazido para perto de nós com santa familiaridade.
Não apenas ouvimos sobre Cristo — nós O contemplamos nas figuras que Ele mesmo escolheu.
Não apenas meditamos sobre Sua morte — nós a anunciamos.
Não apenas recordamos uma doutrina — participamos de um testemunho vivo, comunitário, santo e solene acerca da redenção consumada no Calvário.
Mas a ceia não fala somente da morte de Cristo; ela fala também da comunhão dos santos.
Ninguém a celebra isoladamente.
Ela é refeição da família de Deus, testemunho da unidade do corpo de Cristo e expressão visível de que os remidos, embora muitos, são um só em seu Senhor.
À mesma mesa se assentam pobres e ricos, fortes e fracos, antigos e novos convertidos, pastores e ovelhas, todos igualmente necessitados da mesma graça, todos igualmente salvos pelo mesmo sangue, todos igualmente devedores da mesma misericórdia soberana.
A ceia humilha o orgulho, desfaz distinções carnais e reúne os santos em torno de uma única glória: a glória do Cordeiro que foi morto.
Nela, a igreja se reconhece não como sociedade dos meritórios, mas como assembleia dos redimidos.
Além disso, a ceia possui uma orientação dupla: olha para trás e olha para frente.
Ela nos leva ao Calvário, mas não nos deixa ali como quem contempla apenas uma tragédia passada.
Ela nos faz olhar para o Cristo que morreu, mas também para o Cristo que virá.
Cada celebração é memória e esperança.
Memória da cruz, esperança da consumação.
Memorial da dor redentora, antecipação da glória futura.
O texto sagrado diz: “anunciais a morte do Senhor até que Ele venha.”
Portanto, enquanto a igreja parte o pão, ela declara que seu Salvador já veio; enquanto bebe do cálice, ela confessa que Seu sacrifício foi eficaz; e, enquanto persevera nessa ordenança, proclama ao mundo que aguarda o retorno do mesmo Senhor que morreu e ressuscitou.
A mesa do Senhor, assim, está colocada entre dois grandes montes da redenção: o Calvário e a glória.
Ela nasce da cruz e aponta para o Reino.
Há, ainda, um apelo implícito nesta ordenança, e ele é solene.
A ceia conforta o crente verdadeiro, mas também prova o coração.
Ela convida, mas também examina.
Ela consola, mas também confronta.
Ninguém deve aproximar-se dela levianamente, como quem toca uma coisa comum.
A mesa do Senhor não é lugar para hipocrisia religiosa, para formalismo frio ou para profissão vazia.
Ela chama o homem a examinar-se a si mesmo, a discernir o corpo do Senhor, a vir com fé, arrependimento, amor e santo temor.
Não se trata de perfeição pessoal, como se somente os sem faltas pudessem vir; trata-se de sinceridade espiritual, de dependência de Cristo, de discernimento da graça e de real confiança no Redentor crucificado.
Os que sentem sua culpa e fogem para Cristo têm lugar aqui.
Os que descansam em si mesmos, não.
Este sermão, portanto, se ergue sobre um texto que é ao mesmo tempo simples e insondável.
Simples em sua linguagem, insondável em sua riqueza.
Nele aprendemos o que a igreja faz quando se reúne à mesa, o que ela anuncia, quem deve anunciar e até quando esse anúncio continuará.
Não se trata de um tema periférico, mas de algo que toca o próprio coração do evangelho.
Compreender a ceia do Senhor é compreender melhor a cruz.
Discernir a mesa é contemplar com mais clareza a graça.
Participar dessa ordenança com entendimento é honrar mais profundamente Aquele que nos amou e a Si mesmo Se entregou por nós.
Que o leitor, ao avançar por estas páginas, não veja apenas uma exposição doutrinária sobre um rito cristão, mas contemple, por trás de cada símbolo, a pessoa bendita do Senhor Jesus.
Que o pão o conduza ao corpo entregue.
Que o cálice o conduza ao sangue derramado.
Que a mesa o conduza ao Calvário.
E que o Calvário o conduza à adoração.
Porque, no fim, esta é a grande finalidade da ceia e também deste sermão: que Cristo seja mais claramente visto, mais ternamente amado, mais firmemente abraçado pela fé e mais fielmente anunciado pela igreja, até que Ele venha.
Divino Cordeiro