Charles H. Spurgeon
INTRODUÇÃO Há palavras que, quando lidas no silêncio de um quarto ou ouvidas na quietude de um culto, soam como sinos que não apenas informam, mas chamam.
Elas não vêm para enfeitar a consciência, e sim para despertá-la.
Elas não pedem licença ao nosso gosto, porque trazem consigo o direito do próprio Deus.
E poucas declarações possuem esse peso santo, essa majestade simples e inescapável, como estas: “Vós não sois de vós mesmos… pertencem a Deus.”
Aqui está uma verdade que corta, ao mesmo tempo, a raiz do orgulho e a raiz do desânimo.
Ela humilha o homem que queria ser dono de si, e consola o homem que temia estar entregue a si.
Ela destrona o eu e entroniza o Senhor Jesus Cristo.
A ocasião em que estas palavras nos são postas diante dos olhos torna-as ainda mais penetrantes.
Um servo de Cristo, conhecido e estimado entre nós, adormeceu no Senhor.
O corpo repousa no pó, mas a alma se alegra diante do trono.
A morte, que silencia tantas vozes, não consegue silenciar uma vida que foi entregue a Deus; e é por isso que o testemunho de um cristão fiel, mesmo depois de encerrados os seus dias, ainda fala à igreja como uma exortação viva.
A providência, que nos entristece com a separação, também nos ensina com o legado.
E o legado que nos chega hoje não é um pensamento sentimental, nem um consolo vago, mas uma convocação clara, prática e profundamente espiritual: pertencemos a Deus.
Pertencer a Deus é mais do que uma expressão bonita para momentos solenes.
É um fato de aliança, um direito adquirido, uma realidade de redenção.
Não se trata apenas de que Deus nos fez, ou de que Deus nos sustenta — verdades grandiosas, sem dúvida —, mas de que Deus nos comprou.
O apóstolo, ao tocar em pecados que envergonham a carne e mancham a consciência, não escolhe uma repreensão fria, nem um moralismo de superfície.
Ele toma a lâmina mais afiada do arsenal do céu e a aplica à raiz do mal: “fostes comprados por preço.”
Ele não argumenta apenas com a criação, nem apenas com a providência, mas com o Calvário.
Ele não apenas nos lembra de um dever; ele nos coloca diante de um amor que pagou, de uma misericórdia que custou, de um resgate que foi sangue.
E, quando a cruz é trazida para o centro, o pecado perde o seu encanto, a impureza perde a sua desculpa, e a santidade deixa de ser um fardo para tornar-se uma resposta de gratidão.
Aqui, portanto, a fé cristã mostra a sua verdadeira força.
Ela não é uma licença para viver como se Deus fosse indiferente ao nosso corpo e ao nosso caminho.
Pelo contrário: ela é a mais alta consagração possível, porque nasce do mais alto preço possível.
O Evangelho que proclama a salvação pela graça é o mesmo Evangelho que exige uma vida santa; e a mesma boca que exalta o sangue que justifica é a boca que ordena uma vida que glorifica.
Quem foi resgatado não pode continuar se comportando como propriedade abandonada.
Quem foi comprado não pode falar de liberdade como se fosse autonomia.
A redenção quebra as correntes do pecado para nos prender, com alegria, ao Senhor.
E é aqui que a frase se torna luminosa: não é miséria não ser de si mesmo; é bem-aventurança.
Porque ser “de si” é, muitas vezes, ser governado por um tirano interior; mas ser “de Deus” é ser guardado por um Senhor sábio, bom e fiel.
Não somos deixados à deriva.
Não somos um navio sem dono no mar da vontade própria.
Há uma mão no leme, e essa mão tem marcas de cravos.
Por isso, este tema, apesar de nascer num texto ligado a advertências severas, não é sombrio em sua essência.
Ele é, ao mesmo tempo, tremendo e consolador.
Tremendo, porque estabelece um limite claro: não me pertenço; logo, não posso usar o meu corpo como se fosse meu, nem minha alma como se estivesse à disposição do capricho, da tentação ou da indiferença.
Consolador, porque estabelece uma segurança ainda maior: pertenço a Deus; logo, não estou entregue ao acaso, nem condenado ao abandono, nem à mercê de mim mesmo.
O Deus que compra não compra para perder.
O Deus que redime não redime para largar em um canto para juntar poeira.
O Deus que chama de “seu” sela, guarda e conduz.
Assim, o texto nos coloca diante de três notas que se encadeiam como ferro e ouro.
Primeiro, o fato: fomos comprados.
Depois, a consequência: não somos de nós mesmos, pois corpo e a alma pertencem a Deus.
Por fim, a conclusão inevitável: glorifiquemos a Deus no corpo e no espírito.
Não se trata de um adorno religioso sobre uma vida comum; trata-se da vida inteira reorganizada sob um novo Senhorio.
O cristianismo, quando é verdadeiro, não ocupa apenas algumas horas do domingo; ele reivindica o homem por completo.
A redenção não compra apenas palavras, mas atitudes.
Não compra apenas emoções, mas escolhas.
Não compra apenas o culto, mas a conduta.
E é precisamente por isso que este texto é tão necessário: ele nos livra da fé que cabe no inferno e nos chama à fé dos eleitos de Deus, que purifica, se submete, modificar-se e honra o nome de Cristo.
Que o Senhor use esta palavra como um santo despertador para os que têm vivido dispersos, divididos, negociando com o pecado e tratando a consagração como detalhe.
Que ela seja também um bálsamo para os que se sentem fracos, lembrando-lhes que a sua esperança não repousa na firmeza das próprias mãos, mas no preço pago por Cristo e no direito que Ele adquiriu.
E que, ao abrir este livro-sermão, cada leitor seja conduzido a uma confissão simples, profunda e prática — não com os lábios apenas, mas com a vida: eu pertenço a Deus.
Divino Cordeiro