Charles H. Spurgeon
INTRODUÇÃO Há verdades nas Escrituras que, ao mesmo tempo, humilham profundamente o homem e o levantam para a mais santa das ocupações.
Este texto é uma delas.
Ele nasce do vale escuro do arrependimento, passa pelo riacho vivo do perdão e desemboca no campo amplo do serviço.
Davi não fala aqui como um homem que apenas aprendeu uma doutrina, mas como alguém que foi quebrantado, restaurado e novamente posto de pé pela misericórdia de Deus.
Por isso, suas palavras não têm o tom frio de uma tese religiosa, mas o calor de uma alma que caiu, foi erguida e agora deseja viver para a glória daquele que a salvou.
Há algo profundamente belo na ordem estabelecida pelo Espírito Santo nesse texto.
Davi não diz primeiro: "Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos" para, depois, pedir alegria e sustento.
Não.
Antes da missão, vem a restauração.
Antes do labor, vem a graça.
Antes da utilidade, vem a comunhão.
Antes de falar aos homens sobre Deus, a alma precisa ser visitada por Deus.
Essa ordem não pode ser invertida sem prejuízo espiritual.
A obra do cristão jamais pode ser separada da vida do cristão.
O testemunho mais poderoso não nasce apenas de lábios treinados, mas de um coração renovado, fortalecido e governado pelo Senhor.
Este é um ponto de grande importância para a igreja em todos os tempos.
Há muita atividade religiosa sem vida interior, muito movimento sem comunhão, muito esforço sem unção, muito discurso sem lágrimas, muito zelo sem santidade, muito trabalho para Deus sem deleite em Deus.
Mas a missão cristã, na forma como a Palavra a apresenta, não brota da pressa humana, nem da vaidade ministerial, nem do desejo de relevância, nem de algum ativismo inquieto que quer produzir resultados visíveis a qualquer custo.
A missão cristã nasce da graça.
Ela começa quando o pecador, já alcançado pela misericórdia, sente novamente a alegria da salvação, é sustentado pelo Espírito do Senhor e, então, movido por santa gratidão, passa a viver não mais para si mesmo, mas para aquele que por ele morreu e ressuscitou.
Esse texto, portanto, revela algo fundamental: a missão do cristão não é um acréscimo opcional à fé, mas uma de suas expressões mais naturais.
Quem foi perdoado deseja anunciar perdão.
Quem foi levantado deseja ver outros erguidos.
Quem teve as feridas tratadas pela mão do Médico divino não pode permanecer indiferente aos moribundos que jazem à beira do caminho.
Quem provou que o Senhor é bom não consegue considerar normal que tantos vivam e morram sem conhecê-lo.
O coração verdadeiramente regenerado não se contenta em apenas admirar a graça em segredo; ele anseia vê-la triunfando em outros.
A salvação, quando realmente entendida, não estreita a alma — ela a expande.
Não a enclausura no interesse próprio — ela a envia em amor.
Além disso, o texto nos ensina que a obra de ganhar almas não pertence somente a uma classe específica de homens extraordinários, nem é privilégio exclusivo de pregadores públicos.
Ela pertence, em seu princípio e em seu dever, a todo crente que tenha sido alcançado pela misericórdia de Deus.
É claro que há diversidade de dons, de vocações, de oportunidades e de esferas de serviço.
Nem todos falarão da mesma maneira, nem trabalharão no mesmo campo, nem servirão com a mesma visibilidade.
Contudo, todos os remidos foram chamados a testemunhar.
Todos os que conhecem os caminhos de Deus devem, de algum modo, torná-los conhecidos.
Todos os que receberam luz têm o dever de não escondê-la.
Todos os que foram feitos participantes da graça são convocados a viver de tal maneira que pecadores sejam conduzidos a Cristo.
Também há, nesse texto, uma teologia prática da missão que precisa ser recuperada com urgência.
Davi não diz apenas que ensinará; ele diz o que ensinará: "os teus caminhos."
A missão do cristão não consiste em espalhar opiniões pessoais, nem promover moralismo, nem tornar homens apenas mais civilizados, mais disciplinados ou mais religiosos.
O alvo é muito mais elevado.
O cristão é chamado a ensinar os caminhos de Deus — os caminhos da santidade divina, da culpa humana, da justiça perfeita, da misericórdia soberana, da redenção em Cristo, do novo nascimento pelo Espírito, da fé que recebe, do arrependimento que abandona o pecado e da graça que transforma o coração.
A verdadeira missão não é cosmética; é espiritual.
Não é superficial; é radical.
Não visa apenas ajustar comportamentos; visa conduzir pecadores ao Deus vivo.
É precisamente por isso que este tema é tão solene.
Não estamos tratando de uma atividade periférica da vida cristã, mas de uma responsabilidade que toca a eternidade.
O mundo está cheio de vozes, de ideologias, de enganos, de convites sedutores, de falsas promessas e de caminhos largos.
O pecado não dorme.
Satanás não descansa.
A incredulidade se organiza.
O erro se veste de beleza.
A mentira aprende a falar com suavidade.
E, enquanto isso, muitas vezes a igreja corre o risco de se acomodar, de se entreter consigo mesma, de se desgastar em questões secundárias ou de permitir que a chama missionária se torne baixa e vacilante.
Mas este texto nos chama de volta ao essencial.
Ele nos faz lembrar que a vida recebida de Deus deve transbordar em serviço a Deus.
Ele nos recorda que o salvo é também enviado.
Ele nos mostra que a alegria da salvação não termina em consolação pessoal, mas floresce em compaixão pelos perdidos.
Há ainda outra beleza neste texto: ele une de modo harmonioso doutrina, experiência e prática.
Aqui há teologia profunda, porque tudo começa com a salvação de Deus.
Aqui há experiência viva, porque Davi fala de alegria restaurada e sustento espiritual.
E aqui há ação santa, porque o resultado disso é ensino fiel e conversão de pecadores.
Esse é o cristianismo bíblico em sua inteireza.
Não uma ortodoxia sem lágrimas.
Não uma experiência sem verdade.
Não uma ação sem comunhão.
Mas verdade que incendeia o coração, graça que restaura a alma e amor que sai em busca dos que se perdem.
Este livro-sermão, portanto, tratará de um dos mais nobres assuntos que podem ocupar a mente e o coração do povo de Deus: a missão do cristão.
Não a missão entendida em termos meramente institucionais, estratégicos ou estatísticos, mas a missão como fruto da graça, como resposta do coração perdoado, como dever santo dos remidos e como instrumento usado por Deus para trazer pecadores a si mesmo.
Aqui veremos que somente quem foi restaurado pode falar com verdadeira autoridade espiritual; que o alvo não é qualquer mudança superficial, mas a conversão a Deus; que os motivos para esse trabalho são fortes, ternos e irresistíveis; e que os meios dessa missão devem ser santos, simples, bíblicos e dependentes do Espírito Santo.
Que o Senhor, ao longo destas páginas, nos leve novamente ao Salmo 51 não apenas para admirarmos a experiência de Davi, mas para sermos confrontados por ela.
Que Ele nos faça sentir o peso da graça que recebemos e a grandeza da responsabilidade que nos foi confiada.
Que nos restitua a alegria da sua salvação.
Que nos sustente com um espírito voluntário.
E que, assim, de joelhos diante de Deus e com o coração ardendo por Cristo, sejamos achados fiéis em ensinar aos transgressores os seus caminhos, para que pecadores se convertam a Ele.
Divino Cordeiro