Charles H. Spurgeon
INTRODUÇÃO Há temas que o homem consegue ouvir com distância, como quem observa uma paisagem do alto de uma janela.
Ele pode até admitir a verdade, mas a mantém do lado de fora, como se não lhe dissesse respeito de modo imediato.
Mas existe um assunto que não permite essa comodidade.
Ele atravessa a multidão e chama cada consciência pelo nome.
Ele não aceita substitutos, não se satisfaz com generalidades, não tolera adiamentos.
Ele exige que cada um saia, por um momento, do ruído do mundo e se coloque a sós diante de Deus.
Esse assunto é aquilo que o apóstolo chama, com uma simplicidade que pesa como eternidade: “a vossa própria salvação”.
Aqui não estamos diante de uma especulação, nem de uma questão periférica, nem de um debate de faculdade.
Não é um tema para curiosos, nem um passatempo para os que gostam de medir palavras e discutir sombras.
É a realidade mais íntima, mais urgente e mais pessoal que pode ser colocada sobre um coração humano.
Porque tudo o que é externo pode ser compartilhado, transferido, substituído, emprestado ou perdido e, ainda assim, em algum sentido, recuperado.
Mas a salvação — ou a falta dela — é um destino que ninguém pode viver no lugar de outro.
A fé de um amigo não será contada como a tua fé.
A piedade de um pai não será apresentada como o teu arrependimento.
As lágrimas de uma mãe, por mais santas que sejam, não ocuparão o lugar da tua volta a Deus.
E, quando os pés tocarem o limiar da morte, cada alma irá sozinha; e quando o tribunal se abrir, cada consciência responderá por si; e quando a eternidade se fechar, o que restar será isto: “a tua própria salvação” — ou a tua própria ruína.
Por isso, se existe um momento em que é justo reduzir tudo a um único ponto, é este.
Há uma espécie de misericórdia na brevidade que não distrai.
Três palavras podem conter um sermão inteiro quando elas concentram o essencial.
E estas três palavras são como uma mão firme que nos toma pelo ombro e nos vira para dentro: não para o vizinho, não para a época, não para a igreja, não para as controvérsias, mas para o estado real da alma diante de Deus.
Há uma hora em que é preciso fechar todas as portas, silenciar todas as desculpas e perguntar, com sinceridade solene: o que será de mim?
O que tenho eu, de fato, com Cristo?
O que farei eu com o Evangelho eterno de Cristo?
Em quem repousa a minha esperança?
Que resposta darei quando Deus me chamar para atravessar o rio da morte?
É possível que alguém diga: “Eu não me interesso pelo Evangelho.”
Mas aqui não se trata de gosto.
É possível que alguém diga: “Eu tenho outras preocupações.”
Mas aqui não se trata de agenda.
É possível que alguém diga: “Eu não entendo essas coisas.”
Mas aqui não se trata de erudição.
A salvação é mais prática do que o pão de cada dia, porque o pão sustenta o corpo por algumas horas, enquanto a alma atravessa a morte e permanece para sempre.
A salvação é mais necessária do que a saúde, porque a saúde pode acompanhar uma vida vazia e, ao fim, entregar um homem inteiro ao juízo; mas a salvação faz de um pecador reconciliado um herdeiro da glória, ainda que carregue fraquezas no corpo.
A salvação é mais valiosa do que riquezas e honra, porque um mundo ganho não compra uma única gota de paz para uma consciência condenada, nem altera em um grão a sentença do Justo Juiz.
E, no entanto, este é o espanto da nossa cegueira: que tantas bugigangas ocupem a alma, enquanto a eternidade é tratada como se pudesse esperar.
O apóstolo, ao dizer “a vossa própria salvação”, não está convidando ao egoísmo estreito; está convocando ao realismo espiritual.
Antes de pensarmos em reformas, precisamos ser regenerados.
Antes de corrigirmos o mundo, precisamos ser reconciliados com Deus.
Antes de falarmos de grandes causas, precisamos acertar a causa principal: a causa da nossa alma.
Há um tipo de urgência que não é ansiedade carnal, mas lucidez.
E essa lucidez nasce quando percebemos que Deus não nos deu duas vidas para tentar; deu-nos uma só.
E, depois dela, o juízo.
Por isso, não há tarefa mais racional, nem dever mais santo, nem prudência mais sábia do que tratar com seriedade esta questão: tenho eu a salvação?
É minha, de fato, ou apenas a conheço por ouvir dizer?
Está ela em Cristo, ou eu a imagino sustentada por lembranças, costumes, cargos, parentes piedosos, opiniões corretas, ou por uma paz que nunca nasceu do arrependimento?
Este livro-sermão se abre, portanto, com a intenção de conduzir o leitor a um lugar de honestidade diante de Deus.
Não para esmagá-lo com terror vazio, mas para arrancá-lo da indiferença que mata.
Não para produzir uma emoção passageira, mas para colocar a alma diante do Evangelho como diante de uma porta de vida.
Porque a própria expressão “a vossa própria salvação” traz consigo um apelo e uma esperança: se é “vossa”, ela pode ser possuída; se é “vossa”, ela pode ser buscada; se é “vossa”, ela pode ser recebida pela fé no Salvador designado por Deus.
Cristo não é um nome para adornar a religião; Ele é o Substituto para todo aquele que crê.
E, se não há outro que possa crer por ti, também não há outro Salvador além d’Ele.
Mas há n’Ele suficiente graça para o pecador mais culpado, e suficiente poder para libertar até o coração mais preso.
Que o Senhor, pela ação do Seu Espírito Santo, transforme estas palavras simples em um chamado pessoal.
Que cada um, lendo, seja colocado à parte, numa solidão santa, onde não há máscaras nem comparações — apenas a verdade.
E que, ao fim, não reste em nós apenas a consciência da necessidade, mas o movimento da fé: fugir para Cristo, repousar n’Ele, e conhecer, não em teoria, mas em realidade, “a vossa própria salvação”.
Divino Cordeiro