«Estávamos nos últimos dias de Dezembro de 1846.
Uma camada mui espessa de neve cobria o solo.
O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve não tardava a cair.
Os ramos nus das árvores dos montes tremiam soprados pelo vento norte gelado.
Estava tudo num perfeito sossego, e tristeza; nem o mais leve murmúrio se ouvia
Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam com dificuldade o caminho, que da serra de Valongo conduz a S. Cosme.
A criança, de espaço a espaço, soprava às mãozinhas inteiriçadas pelo frio, e não se podendo sustentar sobre os pés, que tinha inchados pelas frieiras, caminhava vacilante; mas vencendo todos os obstáculos, com uma energia superior à sua idade, tomava galhardamente o seu lugar ao lado da velha.
Esta parecia ter sessenta anos.
Estava corcovada mais pela miséria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas.
Pelo modo como andava, e tacteava o caminho com a muleta, via-se que era cega.»Obra de 1863.