Vinte Horas de Liteira
Camilo Castelo Branco
Publicado por Ediçoes Vercial
"O progresso é uma voragem!
A liteira já se debate nas fauces do monstro.
Vai cair a fatal hora!
Daqui a pouco, a liteira desaparecerá da face da Europa.
O derradeiro refúgio da anciã era Portugal.
Nem aqui a deixaram neste museu de antigualhas!
Nem aqui!
A pobrezinha, a decrépita, coberta do pó e suor de sete séculos, tirita estarrecida de pavor, escutando o hórrido fremir do wagon, que bate as crepitantes asas de infernal hipogrifo.
Ao passo que o vapor talava os plainos, galgava ela, espavorida, os desfiladeiros para esconder-se.
Mas o camartelo e o rodo escalaram o agro e penhascoso das serras, e a liteira, acossada pelo char-à-bancs, sumiu-se ainda nas veredas pedregosas, e acoitou-se à sombra do solar alcantilado e inacessível ao rodar da sege."