Vulcões de Lama
Camilo Castelo Branco
Publicado por Edições Vercial

"Ordinariamente quando, em estilo metafórico, usamos comparar as férvidas paixões de alguns homens aos vulcões, a comparação vai buscar o símile às crateras do Etna, do Hecla e do Vesúvio.
Presume-se pois que os antros do coração humano resfolgam fogo de paixões assoladoras como os intestinos do nosso Globo jorram arroios de lava candente que subvertem, devastam, devoram, pulverizam ou petrificam toda a natureza viva e morta que abrangem nos seus braços de lavaredas
Todavia, há aí na casca do planeta paixões humanas cujo símile não o dá o Vesúvio, o Hecla nem o Etna.
É de Java que ele vem – de Java onde estuam convulsionados uns vulcões de lama que expluem o seu lodo sobre as coisas e as pessoas, primeiro emporcalhando-as, depois asfixiando-as na sua esterqueira espapaçada
Neste romance estão em atividade permanente, sempre acesas, as crateras das paixões da aldeia, também vulcânicas, exterminadoras; mas sujas de uma porcaria nauseabunda – vulcões de lama, enfim."Texto segundo o Novo Acordo Ortográfico.